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quinta-feira, 13 de março de 2014

Os judeus na cidade de Barcelos





Por: Amilcar Paulo 
Jornal Ha-Lapid
 n°. 138 de Junho de 1947 - Barros Basto




Barcelos.
Fotografia da Portugaltours.



O impedimento para que se não consulte o manuscrito 
“Título dos Judeus que se batizaram em pé na Villa de Barcellos no ano de 1497”




Numa casa fidalga do Minho existe uma cópia deste desconhecido manuscrito, que com demasiada avareza é guardado.
Há alguns anos, diz o senhor Dr. J. A. Pires de Lima, uma pessoa fez esforços para consultar o dito manuscrito, a que a terminologia local chama Tição. Depois de muitas hesitações, a nobre dama sua possuidora, negou-se a mostrá-lo, afirmando categoricamente que ninguém lhe poria a vista em cima. Isto disse-se e escreveu-se.
A razão que influiu nesta persistente recusa, sempre que nova e desditosa tentativa surge, para consultar tão interessante fonte de estudo sobre os judeus de Barcelos, é de muitos sabida, pois corre no público, que a nobre família dos possuidores, receiam que o manuscrito revele algum “enxerto de cristã-novice”, desprezando os descendentes pelo grave defeito de pertencerem ao Povo de Israel.
É isto bem estranho, nestes tempos em que a legislação portuguesa, reconhece e garante a plena liberdade de consciência a todos os cidadãos; em que existem israelitas em Portugal ocupando lugares de destaque, entre as mais elevadas camadas sociais e que bem publicamente manifestam as suas origens.
Mas se o célebre manuscrito for lançado ao fogo, nem por isso o sangue nobre de Israel, deixará de correr nas veias de alguns barcelenses, o que não é desdouro. E para tirar o pretexto, fazer desaparecer o medo de que se saiba, pelo Tição, que houve judeus em Barcelos que deixaram numerosa e hoje conhecida descendência, ornada até com títulos nobiliárquicos, reproduzo aqui algumas passagens do manuscrito 227 da Biblioteca Municipal do Porto, intitulado: 
“Traslado de hum Caderno que achei na Caza de João de Sá, e Sotomajor o qual papel serrefere a outro escripto e copiado por letra de Gaspar Borges cujo titulo dizia Livro da Geração dos judeos deentre Douro e Minho dos da Villa de Barcelos donde antigamente era sua sinagoga aqual: estava na Rua nova em Huuns cazaes que estão por baixo dos do Cantinho quando himos por Sima a mão esquerda, e toda aquela Rua era dos Judeos como ainda hoje he, e por haver Sinagoga nesta Rua eser da Casa de Aborim tinha um privilegio que lhe concederão os Reis deste Reino...”
Este privilégio data do reinado de D. Afonso IV, quando o senhor da casa de Aborim, obrou prodígios na batalha do Salado, ficando aquele fidalgo com o domínio sobre as judiarias de Barcelos, Braga, etc.. A Rua Nova, onde estava situada a judiaria de Barcelos, veio mais tarde a chamar-se Rua dos Lanterneiros, hoje Rua do Infante D. Henrique. A judiaria era fechada por dois portões de ferro, ao toque do sino da oração, na Igreja Matriz de Santa Maria Maior. A sinagoga estava situada no local onde hoje se ergue a Estação Telégrafo-Postal. Num dos arrabaldes da povoação estava o cemitério judaico, cujo local se não pode já identificar.
O dito manuscrito cita, entre outros, os seguintes judeus naturais de Barcelos ou de ai descendentes.
Madame Thomas, cuja filha foi presa e queimada pela Inquisição, com 80 anos de idade, a qual se chamava Leonor Nunes. Uma irmã de nome Guiomar Nunes, casou com Jerônimo Saraiva de Mesão-Frio, tendeiro em Barcelos.
A esta família estava ligado o avô da mulher de Pedro Saraiva, médico em Braga. 
Salvador Saraiva, advogado em Barcelos, casado com Catarina Gomes, natural de Vila do Conde e sogra do médico Simão Pereira. 
Manuel de Barros, abade de Cambezes, junto a Monção, foi preso pelo Santo Ofício por Erros de Fé. Inquirida uma testemunha, Alfredo da Silva, de 60 anos, depôs que Manuel de Barros era filho de uma judia de Barcelos.
No auto-de-fé que se realizou em Lisboa no ano de 1596, foi queimado o médico Tomás Nunes, que tinha família em Barcelos.
Tomé Nunes, médico, queimado em Lisboa, “disputou, diz o citado manuscrito, com os inquisidores sobre a Bíblia com eretismo e confessou matar muitos Abades, Frades e Freiras maliciosamente, por serem bons Christiaons”.
Descreve ainda o mesmo manuscrito o caso da tendeira Leonor Dias conhecida pela alcunha de a “judia de Fam”, natural da Vila de Mogadouro, donde fugira, vindo amancebar-se com o abade de Cristelo.
Refere-se o curioso manuscrito a muitos outros judeus, médicos e advogados, originários de Barcelos. É também numerosa a relação de judeus barcelenses perseguidos pela Inquisição.




http://www.rebordelo.net/cripto-judaismo/halapid/n138/index.html


 AMISHAV
Raizes 029‏
Dezembro de 2009 - Kislev, 5770