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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Sugestão literária







Um pouco de história:
 
Não restam dúvidas sobre a manipulação clerical e inquisitorial do roubo ocorrido na Igreja Matriz de Odivelas em 10 de Maio de 1671, que foi pretexto para atiçar o ódio antijudaico e condenar ao fracasso, como infelizmente conseguiu, o processo de conciliação dos cristãos com os judeus. Se há motivos para considerar condenável aquele roubo praticado por António Ferreira, mais razão há para denunciar os verdadeiros criminosos daquele célebre caso: os padres da Inquisição, que executaram impiedosamente um jovem rústico e alcoolizado. Esta é a verdadeira história do Senhor Roubado. Deve encarar-se o monumento edificado em homenagem ao Senhor Roubado como um legado histórico que tem de ser assumido por inteiro, isto é, na sua beleza artística e eventual significado religioso, mas também como símbolo de tempos seculares em que se perseguiam, torturavam e queimavam pessoas, só por terem...
uma religião diferente da católica. Promover o seu estudo e o esclarecimento das circunstâncias históricas que o fizeram surgir, é o melhor que se pode fazer pela sua valorização e dignificação, particularmente junto dos estudantes.
 

Jorge Martins

 
(Retirado do livro)
 
 
 
 
 
Monumento do Senhor Roubado - Fotografia da Câmara Municipal de Odivelas
 
 
 
 

Homenagear o 1º de Dezembro, é um acto de cidadania.
 
Viva Portugal !!!


Pintores portugueses



Vanessa Azevedo


 
 
Palácio de Monserrate
 
 
 
 
 Câmara de Sintra

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Actividades culturais - Espanha




Dia 13 de Dezembro em Girona
 
 
 

Presentació del llibre "Els jueus de Girona i la seva organització. Segles XII-XV", de Jaume Riera i Sans

Presentació del volum 6 de la col·lecció Girona Judaica, "Els jueus de Girona i la seva organització. Segles XII-XV", de Jaume Riera i Sans. L'acte es celebrarà al Museu d'Història dels Jueus a les 19.30 h i anirà a càrrec de Pere Ortí, professor de la UdG, l'autor del llibre, Jaume Riera i l'alcalde i president del Patronat Call de Girona Carles Puigdemont.


 
 
 
Barcelona, os judeus e o comércio mediterrânico, séculos XII-XIV
 
 
 
 
Para ampliar, clicar na imagem
 

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Que delito fiz eu...





António José da Silva



Que delito fiz eu para que sinta
o peso desta aspérrima cadeia
nos horrores de um cárcere penoso
em cuja triste, lôbrega morada
habita a confusão e o susto mora ?

Mas se acaso, tirana, estrela ímpia,
é culpa o não ter culpa, eu culpa tenho.
Mas se a culpa que tenho não é culpa,
para que me usurpais com impiedade
o crédito, a esposa e a liberdade ?



António José da Silva (O Judeu)


  
António José da Silva (o Judeu), nasceu no Rio de Janeiro no ano de 1705 e faleceu em Lisboa em 1739. Descendente de uma família cristã-nova que se refugiara no Brasil, vem para Portugal com a família. Forma-se no curso de Direito na Universidade de Coimbra e em 1737 é preso com a própria esposa grávida, Leonor Maria, a mãe, tia, o irmão André e sua mulher,  todos acusados de actividades judaizantes pela Inquisição. Foi executado em 1739 num auto-de-fé.
Conhecido como dramaturgo, escritor e comediógrafo de teatro de marionetas, as suas peças foram representadas no Teatro do Bairro Alto, onde conheceram grande sucesso popular.



terça-feira, 27 de novembro de 2012

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

"Os Três Chapéus Amarelos"


Lenda ou realidade ?





Sebastião José de Carvalho e Melo, primeiro Conde de Oeiras e Marquês de Pombal 



"...O rei de Portugal D. José I tinha ordenado que todo o português que tivesse sangue judeu deveria usar um chapéu amarelo.
Alguns dias mais tarde, o marquês de Pombal apresentou-se na corte com três desses chapéus debaixo do braço.
O rei, surpreendido, perguntou-lhe: “O que quereis fazer com tudo isso?”



 Pombal respondeu que queria obedecer às ordens do rei.
“Mas - disse o rei - por que tendes três chapéus? “
“ Tenho um para mim - respondeu o marquês - outro para o grande inquisidor e um para o caso de Vossa Majestade desejar cobrir-se.”





 de Cecil Roth, baseado no seu livro " A History of The Marranos".


Perspectivas...



Sinagoga e Rua da Judiaria de Tomar
 



 
de Fernando Joia
  


 
 
 
de Eduardo Salavisa
 
 
 
 

Via: urbansketchers-portugal.blogspot.pt/
 /carteiro-portugues.blogspot.pt
 
   

Fragmento de poemas






"Ansiosa ou serena, é Vossa minh'alma,
Submissa e grata,
Vagueio por mares incertos cheio de alegria por Vós
E a Vós dou graças por onde quer que vá.

E quando as velas desta nau, como asas de falcão,
...
 
 Se abrirem e me levarem daqui,
quando das profundezas se ouvirem os gritos estridentes,
os lamentos e bramidos das tempestades
e as naus cristãs singrarem o mar de Berber
e os piratas se lançarem de emboscada,
quando os monstros do mar se jogarem contra a quilha
e os dragões esfaimados forem em busca da sua presa,
quando os gritos de pavor fossem como os da mulher parindo
seu primeiro filho, que lhe rasga a carne
e ela grita até não mais ter forças de gritar..."
 



(fragmento DE POEMAS DO MAR, DE JUDAH HALEVI, SÉCULO XII)


 

sábado, 24 de novembro de 2012





Quem?
 
 
 
Não sei quem és. Já não te vejo bem...
E ouço-me dizer (ai, tanta vez!...)
Sonho que um outro sonho me desfez?
Fantasma de que amor? Sombra de quem?

Névoa? Quimera? Fumo? Donde vem?...
- Não sei se tu, amor, assim me vês!...
Nossos olhos não são nossos, talvez...
Assim, tu não és tu! Não és ninguém!...

És tudo e não és nada... És a desgraça...
És quem nem sequer vejo; és um que passa...
És sorriso de Deus que não mereço...

És aquele que vive e que morreu...
És aquele que é quase um outro eu...
És aquele que nem sequer conheço...
 
 
 

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"


 
Vestígios e memórias do passado







Rua do Alconxel, cidade de Évora


Via:  guedelhudos.blogspot.pt


sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Shabat Shalom





Cemitério judeu de Šabac




Šabac é uma cidade  da república da Sérvia, situada ao longo do rio Sava, e é com prazer, que revelo aqui algumas das fotografias tiradas pelo estimado amigo e colega Goran Sumanac, ao cemitério judeu da cidade.

 
 





 
 
 
 


 
 
 
 
 


Todah rabah !!!

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Música sefardita











medieval musicians



A Inquisição de Évora








Quando olhamos o lugar sagrado da acrópole, ladeado pela massa formidável da Sé e a leveza do Templo Romano, quando abrirmos os olhos num estremecimento ante a grandeza monumental do passado, estamos longe de imaginar o medo, a superstição, a glória assassina e os passos, por vezes de extraordinária grandeza, dos condenados ao último suplício.

A Norte da praça, a Inquisição Velha encostava os seus cárceres ao Templo Romano. Olhava o Paço do Arcebispo e a Sé. Estendia-se mais tarde a Poente, ocupando casas compradas ao conde da Vidigueira, ainda hoje marcadas pelas armas do Santo Oficio. A legenda Judca causam tuam circundava a espada e o ramo de oliveira. Em 1636, o arquitecto Mateus do Couto redefiniu o espaço. Uma parte era ocupada pelo palácio inquisitorial, morada individualizada dos três inquisidores; na outra, erguiam-se as duas salas do despacho, os cárceres, os cárceres de vigia, a sala de tortura, não visível na planta mas onde se aplicavam os diferentes tratos, particularmente o do potro e o da polé, e ainda os cárceres da penitência. Restam uma imponente sala do despacho, diferentes espaços reaproveitados, o brasão e outros símbolos, cerca de catorze mil processos, livros de receitas e despesas, correspondência diversa, cadernos do promotor, livros de denúncias.

A Inquisição Portuguesa nasceu legalmente em Évora no ano de 1536, legitimada pelo papa, apadrinhada pelo rei D. João III e pelos infantes seus irmãos que sucessivamente ocuparam a mitra da cidade, o cardeal Afonso e o futuro cardeal e inquisidor-geral D. Henrique. E nesta cidade se organizou o primeiro organismo dirigente, o chamado Conselho das Cousas da Fé, onde pontificava o doutor em Cânones pela Universidade de Salamanca, fundador da Inquisição de Lisboa e futuro arcebispo de Évora, doutor João de Melo. Mas, como tribunal autónomo, a Inquisição de Évora nasce a 5 de Setembro de 1541 com a posse do seu primeiro inquisidor, o temível licenciado Pedro Álvares de Paredes, e é extinta pelas Cortes Constituintes por decreto de 31 de Março, publicado no Diário das Cortes de 2 de Abril de 1821.







Juntamente com as inquisições de Coimbra e de Lisboa, a Inquisição de Évora foi um tribunal dito da fé que sujeitava à sua jurisdição todos os crentes, incluído o rei, a quem por vezes ameaçou de excomunhão. Zelava pela fé tridentina [1] e pela limpeza de sangue. A sua presa privilegiada eram os cristãos-novos. Opunha-se tenazmente à sua fusão com os cristãos-velhos, medindo continuamente o sangue das vítimas e contrariando os casamentos mistos. O seu santo oficio consistia em vigiar, escutar, ler, prender, interrogar, submeter a tortura, julgar e condenar sem apelo nem agravo os chamados heréticos, os relapsos, os sodomitas, os feiticeiros, os bígamos, os solicitantes, os ateus. Só prestava contas ao Conselho Geral e ao Inquisidor-Geral. Todas as justiças ficavam sujeitas ao seu poder que, por intermédio do Conselho Geral e das outras Inquisições, cobria o território nacional e o império marítimo.

O seu aparelho era formado por três inquisidores com preeminência do mais antigo, o da primeira cadeira, por deputados, promotor, notário, fiscal, meirinho
[2] , alcaide e guardas dos cárceres. No pessoal eventual, incluíam-se o médico, a parteira, o barbeiro, o pintor das efígies dos condenados à morte, os padres que eram incumbidos de ajudar, nos últimos momentos, os condenados a confessar ou a morrer. A acrescentar a estes funcionários da sede, espalhavam-se pelas principais cidades e vilas os comissários ou delegados locais do Santo Oficio, escolhidos entre os clérigos mais eminentes, os familiares leigos que asseguravam com a sua espada as prisões e a ordem no auto da fé, os qualificadores ou doutores universitários que analisavam as proposições suspeitas de heresia.

No dia 13 de Janeiro de 1729, D. João V visitou incógnito, em companhia do físico-mor, os cárceres da Inquisição de Évora. Entrou pela porta secreta do alcaide dos cárceres, assistiu ao interrogatório de um feiticeiro, examinou os cárceres de vigia, entrou na sala do despacho, olhou das janelas o palácio do arcebispo e penetrou depois, à luz das velas, na sala do "secreto". A 6 de Fevereiro, no seu regresso da fronteira, o rei visitou de novo os cárceres e na sala da tortura um dos guardas sujeitou-se simuladamente aos tratos de polé e às correias do potro.

Não faltaram conflitos a minar o entendimento entre as quatro grandes instituições que marcavam a vida da cidade: a Sé, a Universidade, a Inquisição e o Concelho. A Inquisição e a Sé estavam frente a frente. O Concelho tinha a sua sede num dos extremos da Praça Grande ou Praça do Giraldo onde se desenrolavam os autos da fé. A Universidade marcava um espaço junto da antiga alcáçova
[3] . Na coexistência nem sempre pacífica dos poderes, os arcebispos furtavam-se a ir ao auto da fé por questões de preeminência. Queriam uma cadeira especial que os inquisidores, administradores do acto, negavam. Mas a ligação à Sé era orgânica: quase todos os inquisidores acumulavam o seu cargo com os de cónego da Sé e muitos deles subiram às mitras, designadamente à mitra de Évora, considerada nos meados do século XVIII mais rendosa que a Sé de Braga e a segunda das Hespanhas.

Também não faltaram questões com a Universidade que disponibilizava os seus doutores para a pregação nos autos da fé e para o acompanhamento final dos presos. As questões eram ainda de preeminência. Quem devia abastecer-se primeiro de carne no mercado: os criados dos inquisidores ou os da Universidade? Num conflito célebre entre a Universidade e a Inquisição, deflagrado em 1643, D. João IV decidiu contra a Universidade, possuidora de antigos privilégios e partidária da Restauração, e a favor da Inquisição que contra ele conspirava e prendera o padre jesuíta Francisco Pinheiro, lente de Teologia.






"Auto de fé", de Elan Marsiglia


A tensão entre a Inquisição e a cidade explodiu algumas vezes em violência. Um dos momentos de maior tensão viveu-se na última década do século XVI quando os inquisidores prenderam boa parte dos mercadores eborenses da Praça Grande. Para escárneo das famílias, penduravam-se na igreja de S. Antão as efígies dos condenados à morte. Mas os inquisidores queixavam-se que alguém as destruía pela calada ao mesmo tempo que os cristãos-novos se recusavam a ser fregueses de S. Antão.

Numa sociedade mortificada por escrúpulos de consciência, sempre desconfiada dos seus pensamentos e dos pensamentos e das práticas dos vizinhos, o tribunal alimentava-se quase exclusivamente da denúncia. E toda a sua actividade interna consistia em fabricar denúncias, verdadeiras e falsas, usando as longas prisões sem culpa formada, as ciladas, a coacção psicológica, a tortura. O momento mais alto era o do auto da fé anual, a «Testa» que por vezes se prolongava pelo dia inteiro e onde eram «reconciliados» ou garrotados e queimados os hereges relapsos e negativos, quase sempre cristãos-novos.

O lugar de deputado e de inquisidor abria as portas do verdadeiro cursus honorum que desembocava nas mais altas prebendas da Igreja e do Estado: conezias
[4] , mitras, reitorados da Universidade, Conselho de Estado (por inerência, o membro do Conselho Geral tornava-se membro do Conselho de Estado), Mesa da Consciência e Ordens. Pelos quadros da Inquisição de Évora passaram doutores e mestres em teologia, doutores, licenciados e bacharéis em direito canónico ou em ambos os direitos. Entre eles, o teólogo dominicano Frei Jerónimo de Azambuja que participou no Concílio de Trento, e Marcos Teixeira, cónego doutoral da Sé de Évora, futuro bispo do Brasil que comandou a reconquista da Baía tomada pelos holandeses em 1624.

O chamado distrito onde a Inquisição de Évora exercia a sua actividade abarcava todo o sul do Tejo com excepção da península do Setúbal. Nos seus primórdios recebeu presos de Trás-os-Montes e da Beira. As cidades e vilas mais castigadas foram Beja, Évora, Elvas, Montemor-o-Novo, Campo Maior, Arraiolos, Viçosa, Estremoz, Serpa, Faro. Os períodos de maior rigor ocorreram nos governos de Filipe II e IV e após a morte de D. João IV. E só depois do governo do Marquês de Pombal, o pedreiro livre substitui o cristão-novo.

Entre as vítimas conta-se o desembargador e humanista Gil Vaz Bugalho, cristão-velho, amigo de linguistas de origem hebraica, doutos no latim, no hebraico e no caldeu, tradutor para linguagem dalguns livros do Velho Testamento e queimado em 1551. Frei António de Abrunhosa, franciscano natural de Serpa, parte de cristão-novo e cristão no coração, assistiu à prisão da mãe, das irmãs e sofreu ele próprio a perseguição dos seus conventuais e do Santo Oficio. Manuel Casco de Farelais, aluno da Universidade e fidalgo cristão-novo, enviou da prisão um Padre Nosso em verso antes de ser queimado em 1629. Em 1613 um cristão-novo denunciava alentejanos que judaizavam em Hamburgo e Amesterdão. Entre eles contavam-se o licenciado Francisco da Rosa, dos Rosas de Beja, Manuel Gomes de Évora (Jacob Abenatar), Álvaro de Castro, dos Namias de Beja, Melchior Mendes de Elvas (Abraão Franco), Nuno Bocarro (Jacob Pardo), dos Bocarros de Beja, e outros. Os fugitivos diminuíam as forças de Portugal e alimentavam as da Holanda e doutros países do Norte.

António Costa Lobo, um dos cidadãos mais ricos de Beja, onze anos preso sem culpa formada e queimado em 1629, afirmava que o Santo Ofício era um tribunal do diabo. Que os inquisidores vinham da Beira julgar as consciências alheias e, em vez de as salvarem, as metiam no inferno.

Durante quase três séculos muitos dos homens mais poderosos das cidades e das vilas a Sul do Tejo passaram pelos cárceres e sofreram o confisco dos seus bens. De tal modo que, já em 1630, o inquisidor-geral D. Fernando de Castro escrevia que se o reino estava menos rico em compensação estava mais católico. Mas no fim das contas, sem somar o sofrimento e a humilhação, sem contar a «desonra das gerações», nas palavras de frei António de Abrunhosa, podemos afirmar que o Alentejo e o Algarve ficaram menos católicos e mais pobres.




de António Borges Coelho *



[1] Fé tridentina: disposições aprovadas no Concílio de Trento (1564) para combater a reforma protestante.
[2] Meirinho: oficial de diligências.
[3] Alcáçova: pequena fortaleza.
[4] Conezias: rendas dos cónegos. 


 
*Historiador

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Raios e coriscos...




 

 
Judaísmo, marranismo e identidade







Dr. Jorge Martins



Os judeus viveram um longo período de afirmação e crescimento em Portugal até que, em 1496, sob a pressão dos ventos adversos que sopravam forte da vizinha Espanha desde finais do século XIV, D. Manuel I não soube ou não quis resistir às exigências políticas espanholas, quando desposou a filha dos "Reis Católicos". Pior do que a expulsão, ao contrário do que haviam feito os seus sogros, o nosso rei tentou a todo o custo impedir a saída dos judeus e, com eles, os seus cabedais, o seu saber, a sua competência, a sua experiência, a sua capacidade empreendedora, o que arruinaria o tecido sócio-económico do reino. Enganou-os, não cumpriu o seu próprio édito intolerante e forçou-os ao baptismo. Mas, mais do que o incomensurável drama humano que provocou numa boa parte da portugalidade, foi a incompatibilidade que introduziu na sociedade portuguesa. Os judeus, agora não-judeus, mas sempre tidos como tal, eram rejeitados, quer como judaizantes quer como espúrios, condenados à eterna mácula do "pérfido" sangue judaico, uma gota que fosse.





Alfama - Lisboa
(fonte do poeta)



Verdadeiramente anti-semita, D. João III daria o golpe final na situação que seu pai criara, mas que oscilava o suficiente para vir em socorro das vítimas do massacre de 1506, decretando a extinção da distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos, vedando as inquirições às práticas judaicas, autorizando a sua saída do reino, não pedindo com a devida veemência o Santo Ofício para o Reino. Seria, efectivamente, seu filho, o incansável inimigo dos judeus, quem porfiaria nas pretensões intolerantes do estabelecimento da Inquisição, que compraria à Santa Sé, após mais de uma década de esforços, de corrupção activa e de imensos cabedais.
Importada que foi a expulsão, sem qualquer alteração substancial da relativa aceitação do judeu na sociedade portuguesa, apesar da existência de alguma animosidade, quiçá ampliada pelos infelizes acontecimentos no resto da península, a Inquisição viria alterar irreversivelmente a relação entre cristãos-novos e cristãos-velhos. Apesar do terror inquisitorial, a resistência cristã-nova e a persistência do culto judaico durante os séculos XVI a XVIII, pode ser atestada pelos próprios processos do "fero monstro", pela conversão de inúmeros cristãos-novos portugueses que se exilam para poderem desenvolver as suas actividades económicas e assumir a sua verdadeira religião e pela espantosa emergência do criptojudaísmo durante as primeiras décadas do século XX.
Não partilhamos a (insuficientemente fundamentada) justificação da introdução da Inquisição como uma necessidade de regulação da relação entre cristãos e judeus, ou como uma tentativa de evitar o mal maior do antijudaísmo popular. Um dos argumentos mais utilizados para legitimar o Santo Ofício como uma resposta aceitável para a época, é o do massacre de 1506, que foi sanado por D. Manuel, que castigou exemplarmente os instigadores, comandados por dois frades dominicanos, que também foram executados por ordem régia. Mas, uma vez mais se comprovava assim que a acção tolerante dos nossos monarcas poderia ter evitado o crescendo do antijudaísmo encorajado e acicatado por clérigos intolerantes. Contudo, a política prosseguida por D. João III foi a grande responsável pela inviabilização da conciliação possível de judeus e cristãos, como acontecera no passado. A Inquisição não foi, pois, uma necessidade, um impulso natural, uma tentativa de evitar um mal maior. Bem pelo contrário, o Tribunal do Santo Ofício encarcerou o país nas teias da estreiteza anti-humanista da visão de um clero racista que empenhou o futuro de Portugal a todos os níveis.







Padre António Vieira



Não obstante, não se pode deixar de assinalar que houve homens corajosos que se opuseram aos crimes inquisitoriais, sancionados por D. João III e todos os monarcas que lhe seguiram as pisadas. O primeiro grande filo-semita foi António Vieira, que, apesar de não ter sido bem sucedido nos seus intentos tolerantistas, acabaria por influenciar outras personalidades, como D. Luís da Cunha, Xavier de Oliveira, Ribeiro Sanches e Melo Freire, que retomariam as propostas de reforma dos métodos da Inquisição ou, mesmo, de aceitação do livre culto aos judeus. Quando Pombal legislou favoravelmente às pretensões judaicas, ironicamente, poria em prática as teses de um dos principais lutadores pela tolerância, o jesuíta António Vieira, membro da odiada Ordem a quem Sebastião José de Carvalho e Melo acusaria de responsável por todos os males do Reino.
Ceifada pela raiz a intolerância antijudaica, designadamente na sua expressão literária e na inaceitável discriminação persistente em pleno Século das Luzes, estava delineado o caminho para a emancipação judaica, que começaria pela criação de comunidades israelitas em Lisboa, Açores e Faro, veria consagrada tacitamente na lei a sua existência, embora como "colónias" estrangeiras, com a extinção da Inquisição, e alcançaria o reconhecimento legal após a implantação da República. Seria justamente durante o novo regime republicano que emergiriam à luz do dia das conservadoras terras interiores das Beiras e de Trás-os-Montes as comunidades marranas, esquecidas do judaísmo oficial, esquecidas do país, esquecidas do mundo, até esquecidas de si próprias. Novo abalo se sentiria nas hostes anti-semitas, que haviam sido emudecidas por Pombal desde o último quartel do século XVIII. Com efeito, se o século XIX não foi favorável ao crescimento dessas ideias entre nós, a proclamação da República e o resgate do criptojudaísmo veio proporcionar novos argumentos aos paladinos da intolerância, adversários da liberdade e da democracia. Barros Basto tornava-se assim o centro das atenções anti-semitas, enquanto se invocavam os Protocolos dos Sábios do Sião para confirmar as pretensões dominadoras do mundo e derruidoras do edifício católico por parte dos israelitas.
O criptojudaísmo, assolado por anti-semitas cada vez mais intervenientes e por judeus receosos da estabilidade, paulatina e sofridamente alcançada ao longo de mais de um século de dificuldades, de dissenções internas e de precauções externas, depois de um momento de euforia internacional, ver-se-ia remetido a um criptomarranismo forçado. O país nunca mais recuperaria a alma judaica, enterrada pela Inquisição e inviabilizada na sua forma única de sobrevivência: o marranismo.
Forçados a abjurar o judaísmo, perseguidos por nos termos tornado cristãos-novos à força, impossibilitados de regressar ao judaísmo oficial e incapazes de criar uma igreja marrana, tornámo-nos um povo com identidade, não apenas múltipla e miscigenada, mas difusa e sempre dominada por uma angustiante duplicidade, que nos tem impelido, ora para a exagerada euforia optimista, ora para o recorrente pessimismo de não termos assumido uma identidade, qualquer que fosse, mas uma identidade assente em inequívocas raízes de pertença, interiorizadas em todas as suas dimensões.
Foi este o mais perene dos muitos crimes da Inquisição, que os dois séculos posteriores à tri-centenária história da intolerância não conseguiram reconciliar no ser português que somos hoje. Na verdade, perdemos a nossa plena identidade a partir do início do século XVI e nunca mais a recuperámos até hoje. Por outras palavras, apesar da tão propalada presença judaica no ser português, ainda não somos capazes de assumir, no século XXI, a dimensão judaica da nossa identidade.
Isto é consequência da bem sucedida acção de desmantelamento da sociedade das três culturas – cristã, judaica e muçulmana – que Portugal esboçou na aurora da nacionalidade e se poderia ter aprofundado, não fora o infamante decreto de expulsão e o terrorista tribunal da Inquisição. Com efeito, as comunidades judaicas portuguesas crescem entre os séculos XII e XV, revelando um claro sinal de que a tolerância – aceitando-lhe a natureza contraditória –, assumida pela generalidade dos nossos monarcas até D. Manuel I, possibilitaram o enraizamento da dimensão judaica do ser português do século XVI. Mesmo o rei que decretou a expulsão de judeus e mouros sabia que isso seria – como, infelizmente, para eles e para nós, foi – uma catástrofe económica, social e cultural irreversível. Por isso, não deixou sair os judeus e baptizou-os à força, mesmo contra a vontade dos seus conselheiros.
A desestruturação mental que o baptismo forçado e a acção inquisitorial operaram na sociedade portuguesa, obliterou o (embora precário e desigual) convívio inter-religioso e intercultural que se estava a construir ainda antes da fundação da nacionalidade e se aprofundou durante os séculos XII a XV. Foi a intolerância católica que impediu o português de quinhentos de ser o que era de facto: um povo de raízes diversas. Essa amputação social, cultural e mental teria repercussões incomensuráveis em todos os domínios da vida portuguesa, acabando por atravessar a história dos judeus, dos marranos e dos cristãos (novos e velhos), que não mais puderam assumir-se em toda a plenitude do seu ser. Dos escolhos da(s) intolerância(s) emergiria um novo português, o português que todos nós somos um pouco: o marrano, que, quer queiramos ou não, nos ficou como uma marca identitária indelével.



de Jorge Martins

(Doutorado em História Contemporânea, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa).



Via:  Blog Ladina

Música sefardita




Intérprete:  Soledad Bravo.
Imagens: Bairro da  Judiaria de Córdoba (Andaluzia, Espanha).
 
 



terça-feira, 20 de novembro de 2012

Judeus em Campo Maior





Campo Maior é uma vila portuguesa que faz fronteira com Espanha, e devido à sua proximidade com o país vizinho, viu aumentar  a sua população hebraica a partir de 1492, consequência da entrada em Portugal dos muitos refugiados judeus vindos de Castela.





Vista geral de Campo Maior




Esta oportunidade em se refugiarem no nosso país, era facilitada pela constante movimentação comercial que existia entre Campo Maior e a Estremadura espanhola, tal como Ouguela e a nossa Olivença, estarem incluídas no bispado de Braga e, por isso, afastadas o suficiente do controle eclesiástico, que de outro modo, poderia criar maiores e mais sérios problemas.
Quem eram estes fugitivos que atravessaram a fronteira?  Eram médicos, mercadores, boticários, artesãos e sapateiros, alguns, senão muitos, acabaram por serem detidos e colocados nas masmorras da Inquisição de Évora.
Pela documentação ainda existente, entre o ano de 1582 e 1593, foram presos pelo Santo Ofício, quase 300 habitantes de Campo Maior, colocando esta localidade como a das mais castigadas em todo o Alentejo.




Fonte: "Passos na Areia", da historiadora e jornalista Maria Júlia Fernandes, pág. 40. Editora Contexto,ano - 1996.




Vestígios e memórias do passado






Cidade de Tomar





segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A frase da semana






 
 
"Se a vida não tem preço, nós comportamo-nos sempre como se alguma coisa ultrapassasse, em valor, a vida humana... Mas o quê ?"
 
 
 
 
Antoine de Saint-Exupéry
 
 
 

“Yo m’estava reposando”


(Juan del Encina-1529)

Yo m’estava reposando
dormiendo como solía.
Acordé, triste, llorando,
con gran pena que sentia.




"O ROSTO DE UM EXILADO"
DE ELAN MARSIGLIA


 VIA:  SEFARAD ARTE Y MEMORIA


domingo, 18 de novembro de 2012

Francisco Rodrigues Lobo







Écloga I
 

Dizem que já noutra idade
falaram os animais,
e eu creio que por sinais
inda hoje falam verdade.
Ouvi contar como então
se fez valente e temido
um vil jumento, escondido
nos despojos de um leão.
Enquanto de longe o viam
os outros fugiam dele:
eram milagres da pele
do rei, a que eles temiam.
Quis falar, buscou seus danos,
que os outros, com raiva crua,
fazem pagar pela sua
da outra pele os enganos.
Quantos há, na nossa aldeia,
leões e lobos fingidos,
que houveram de andar despidos,
se não fora a pele alheia!
 
 

Éclogas, I

Francisco Rodrigues Lobo
 
(Leiria, 1580 – 1621/22)
 
 
Foi um dos mais importantes discípulos de Camões. Considerado o iniciador do Barroco na literatura portuguesa e licenciado em direito. Francisco Lobo era proveniente de uma família de cristãos-novos.
 

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Shabat Shalom







Imagem retirada de:  Sefaradi blog


IDF






O IDF é e será sempre o pilar da integridade e da soberania de toda a nação hebraica.
Neste momento mais difícil (perante os permanentes ataques de mísseis vindos de Gaza),  é nesta prestigiada instituição militar que deposito a minha esperança e a minha total solidariedade.





quarta-feira, 14 de novembro de 2012


“O sábio de coração aceita os mandamentos, mas o insensato de lábios ficará transtornado.”
 
pROVÉRBIOS




 "a Luz dA TorAH", Elan Marsiglia
 
"Adeus Sefarad"






SEFARAD: ARTE y MEMORIA - Elan Primo Marsiglia
 
 

"Ellos los vencedores/ Caínes sempiternos,/ De todo me arrancaron/ Me dejan el destierro..."
 
 

(Luis Cernuda)