Número total de visualizações de páginas

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Judaísmo em Chaves: A localização da judiaria flaviense




Muito recentemente li o artigo do historiador Jorge Ferreira e reconheço que fiquei bastante curioso pelo tema.
Em deslocação à região de Valpaços, aproveitei e dirigi-me à cidade de Chaves, mais concretamente ao local da narrativa.
Depois de algumas peripécias pelo meio, tive a sorte de encontrar o senhor Manuel Salas, que atenciosamente me indicou a forma mais directa de dar com o sítio, e assim, lá cheguei à Rua General Sousa Machado, ex Rua Nova.







Por Jorge José Alves Ferreira

Licenciado em História e Mestre em Estudos Portugueses 
Multidisciplinares especialização em História




Num artigo anterior tentámos contextualizar a judiaria flaviense na geografia das judiarias existentes no reino, no início do século XIV, destacando o relevo que a mesma teria alcançado especialmente no contexto transmontano. Para suportar esta tese, lançamos mão dos impostos pagos pelos judeus flavienses e do facto de aí ter existido uma escola, para o estudo das sagradas escrituras, famosa em toda a comunidade científica. Só uma comunidade judaica culta, financeiramente desafogada poderia suportar tamanhos encargos materiais. Acresce que este desafogo financeiro irá ser confirmado mais tarde, pelo menos em duas ocasiões. Num primeiro momento, logo no início de 1497, quando lhes pareceu ser possível, através de “suborno”, protelar a aplicação das ordens do rei relativas à apropriação da sinagoga e das alfaias litúrgicas; mais tarde, em 1631, quando contribuíram, com maior verba que qualquer comunidade, para levantamento de um padrão, mas destes temas falaremos oportunamente.








Hoje, proponho-me tentar responder à seguinte questão: onde se localizaria a comuna judaica flaviense e a célebre escola onde se explicavam as sagradas escrituras? No estado actual das investigações, não se pode dar uma resposta concreta, apenas podemos formular uma hipótese.
Depois da expulsão (ou conversão forçada ao cristianismo) das minorias religiosas, deixou de haver, pelo menos oficialmente, judeus em Portugal e, como tal, tudo aquilo que fossem símbolos, templos e nomes que lembrassem os seguidores da Lei de Moisés foram eliminados. Em Chaves também assim foi, daí que não se possa afirmar, com total segurança, que a judiaria e os edifícios associados ao seu funcionamento se localizassem exactamente aqui ou ali; mas, pelos indícios existentes, que me parecem relevantes, podemos dizer, sem grande margem de erro, onde se localizaria a judiaria e o seu templo agregador, a sinagoga.



No final da Idade Média e princípio da Idade Moderna, a vila de Chaves encontrava-se ainda encerrada entre muralhas e tinha apenas quatro ruas principais (Rua da Cadeia – actual Rua Bispo Idácio –, Rua Direita, Rua de Santa Maria e Rua Nova) e algumas travessas que faziam a ligação entre aquelas, situação que se mantinha ainda no século XVIII. Neste século, como se constata por gravuras de Chaves daquela época, as casas que existiam fora da cerca amuralhada eram pouquíssimas.






                                                                                diarioatual

  


Em muitas localidades do Reino, a rua onde se localizava a comuna judaica, depois da expulsão dos judeus, passou a chamar-se Rua Nova ou Bairro Novo [no Porto, em Lisboa, Castelo Branco, (…) não foi assim]. Em Chaves, a actual Rua General Sousa Machado foi a Rua Nova, pelo menos, durante quatro centúrias, até início do século XX. Nela existe uma casa que faz esquina com a Rua Luís Pires de Viacos e se distingue das demais pela sua estrutura arquitectónica e, sobretudo, pela frontaria, e que tudo indica que seja a antiga sinagoga, centro nevrálgico e aglutinador da judiaria, que desempenhava nesta as mesmas funções da igreja no concelho cristão. Aquela, depois da expulsão/conversão da minoria judaica, foi transformada numa capela em honra da Senhora da Conceição, que, como refere Tomé de Távora Abreu, se situava na Rua Nova, ali perto do Postigo da Manas. Por outro lado, sabe-se que os judeus tinham por hábito marcar as ombreiras das portas e janelas com o símbolo do Deus único de Israel, a estrela de seis pontas, que costuma designar-se de Estrela de David. Acontece que depois da conversão (voluntária ou não) dos judeus ao cristianismo, estes, para que não restassem dúvidas sobre a sua nova condição religiosa, desenharam a cruz de Cristo na entrada das suas casas. Algumas dessas marcas, embora de difícil observação devido à erosão, ainda podem ser vistas nas ombreiras de algumas habitações na actual Rua General Sousa Machado (antiga Rua Nova que começava junto à cerca do castelo e à capela da Misericórdia e desembocava no Postigo da Manas, aberto na alta muralha, com acesso directo ao arrabalde de baixo). Ali perto, do lado esquerdo do Postigo da Manas, quem está voltado para norte, existe o baluarte do Cavaleiro, em honra do fidalgo Gaspar Queiroga, provedor da vila em cortes, de possível origem judaica, e que residia ao lado da judiaria, segundo o Abade de Baçal. Acresce ainda que a Rua Nova (Antiga Rua da Judiaria?) “deve ter marcado na época uma das vias de maior movimento comercial do burgo” (Júlio M. Machado, 2006, p. 226), o que faz jus à tradicional predilecção das gentes de origem judia para lidar com as actividades mercantis. Os judeus flavienses, e os seus descendentes cristãos-novos, fizeram do trato comercial (fossem tratantes, mercadores e tendeiros) a sua actividade favorita.






Rua General Sousa Machado.

















Quando a Câmara Municipal de Chaves atribuiu (e bem!) a uma rua (antiga Travessa de Santa Maria) o nome de Luís Pires de Viacos, segundo Firmino Aires, outro motivo não teve senão transmitir aos vindouros um facto histórico da vida judaica na vila de Chaves. Ora, a Luís Pires de Viacos foram atribuídas as rendas do Genesim (este nome advém do primeiro livro da Bíblia, o Génesis) de Chaves, a tal escola onde os rabis e eruditos da Lei, depois das orações da manhã e da tarde, iam fazer preleções sobre o Pentateuco e o Talmude, no valor de 3000 réis. A sinagoga era o local de oração, mas também podia servir para aí reunir a comunidade, ser escola e tribunal. Para o “Povo do Livro” a instrução era fundamental, daí que em todas as judiarias tivessem uma escola que poderia ter instalações próprias ou que então se poderia servia da sinagoga. O Genesim de Chaves, provavelmente, tinha instalações próprias, pois só assim poderia alcançar o nível que o notabilizou entre a comunidade judaica e actualmente entre a comunidade científica. Mas onde se localizaria esta escola? O estado actual da questão não nos permite ainda esclarecer esta dúvida. Contudo, tudo aponta para que a mesma se localizasse no edifício anexo à sinagoga, com serventia para a actual Rua Luís Pires de Viacos por duas portas ali existentes, e que faz parte do mesmo conjunto arquitectónico.











Para a localização da judiaria, nesta área da vila medieval, concorre também a existência de um poço ali nas imediações (actual Rua do Poço) e o acesso privilegiado às nascentes das caldas, pois a existência de água perto era muito importante tanto para as abluções rituais, como para preceitos higiénicos que os judeus tanto prezavam, em contrate com a maioria cristã.
Depois, a judiaria deveria localizar-se perto dos templos cristãos para que, através da prédica e do exemplo, os judeus se convertessem à fé de Cristo – o proselitismo apenas era permitido à maioria cristã.
Para além de poderem professar livremente a religião mosaica, os judeus tinham direito a possuir cemitério próprio, geralmente no exterior das muralhas, mas, até ao presente, não é possível ter a mínima ideia onde se localizaria. Contudo, sabemos que os cemitérios judaicos foram apropriados e doados a entidades públicas e privadas e, algumas vezes, as pedras das campas e as cabeceiras dos jazigos utilizadas em construções de todo o tipo, como hospitais e templos. Ora, segundo Júlio Montalvão Machado, a Igreja Matriz de Chaves sofreu obras de ampliação e restauro durante o século XVI, as quais incluíram a construção da nave central e da lateral esquerda. Não deixa de ser interessante constatar que na fachada lateral esquerda, do lado esquerdo da ombreira da porta lateral, junto ao solo, possa ser observada o símbolo judaico, uma estrela de seis pontas. Esta foi posta a descoberto aquando da realização das obras de restauro do pavimento do Largo do Pelourinho. É provável que na construção da nave tenham sido utilizados materiais que pertenceram à antiga judiaria, pois não podemos equacionar que alguém, independentemente do seu credo religioso, afrontasse a toda-poderosa e conservadora Igreja Católica ali desenhando propositadamente tal símbolo.






Postigo das Manas.











Antiga Sinagoga ?








Pelo que atrás foi referido, ainda que de modo simples, podemos afirmar, com alguma certeza, que a judiaria flaviense se localizava na parte sul da actual Rua General Sousa Machado, junto ao Postigo das Manas, e na Rua Luís Pires de Viacos. É claro que falta encontrar um documento escrito, se é que existe, que confirme esta acepção; no entanto, para esta interpretação concorre a tradição oral. No sentido de tentar esclarecer esta questão da localização exacta da sinagoga, abordamos a ocupante (já falecida) do edifício que pensamos corresponder àquele templo. Questionamos se sabia qual a importância daquela habitação para a História de Chaves. Respondeu-nos, enquanto estendia a roupa ao sol, que tinha consciência de morar numa casa com muita história, pois apareciam muitas pessoas, que não eram naturais da cidade e algumas vinham de longe (até do estrangeiro!), para a visitar, e sempre nos foi dizendo que aquela casa era a “igreja dos judeus”! Parece não restar dúvidas que estamos perante a antiga sinagoga flaviense, que o caro leitor vai, porventura, querer visitar sem mais delongas! Urge potenciar esta zona da Medieval Vila de Chaves e integrá-la no roteiro turístico religioso, mormente através da inclusão na “rede das judiarias” que tão bons resultados têm proporcionado a outras localidades fronteiriças, com bem menos tradição judaica do que a velhinha Aquae Flaviae.




Fotografias de R@fael Baptista e Manuela Videira (2015)







Via: diarioatual.com 
 Sáb,8 Nov 2014