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quarta-feira, 9 de março de 2011

O terramoto de 1531





Lisboa quinhentista. Duarte Galvão, na Crónica d’el Rei Dom Afonso Henriques, c. 1520.




Com um epicentro algures entre Azambuja e Vila Franca de Xira, no dia 26 de Janeiro de 1531, um terramoto destruiu parcialmente Lisboa. Sismo que, segundo se julga, pouco terá ficado a dever ao de 1755. No entanto, a cidade não era tão grande, nem tão populosa, embora para a época, fosse considerada de enorme dimensão – teria cerca de 100 mil habitantes (contra os 275 mil de 1755). As zonas da cidade que foram atingidas não terão também sido as mesmas. Como exemplo desta afirmação, o Hospital de Todos os Santos, no Rossio, não ficou significativamente danificado, vindo porém a desaparecer no sismo de 1755. Sabe-se também que, embora com menos danos registados, o Ribatejo e o Alentejo foram regiões duramente atingidas. Desde o dia 7 que se verificavam abalos, mas o mais grave foi o de 26 quando, ao princípio da madrugada, a terra tremeu por três vezes. Não há registo de maremoto, tsunami ou grandes incêndios, como na catástrofe de 224 anos depois. Em todo o caso, o número de vítimas que a tradição consagra é o de 30 mil. Tendo em conta a população da cidade, foi igualmente uma tragédia de grandes dimensões. Por outro lado, as fontes de informação disponíveis para estudar o terramoto de 1755, não são tão copiosas para o de 1531. Sabemos, no entanto, que houve danos muito consideráveis. Na principal rua de Lisboa, a Rua Nova, tombaram varandas e muitos dos edifícios abriram enormes fendas. Uma parte do palácio real, o Paço da Ribeira, sofreu grandes estragos. A Torre de Belém e o Mosteiro de Belém (Jerónimos) foram também duramente atingidos. António de Castilho, filho do arquitecto João de Castilho, descreveu os estragos em Lisboa, particularmente no Rossio, onde caiu a Igreja de Nossa Senhora da Escada., uma parte do Paço dos Estaus (onde se acolhiam os altos dignitários estrangeiros), parte das naves do Convento de São Domingos (onde está hoje o Teatro de D. Maria II). Houve danos na Sé, no Convento do Carmo, na Igreja de São João da Praça e, como já, disse, numa ala do Paço da Ribeira. De notar que o Bairro Alto, um dos primeiros bairros europeus a ser construído com planta em quadrícula, foi edificado para responder à destruição provocada pelo terramoto de 1531. Especulação sobre os terrenos, comprando quase de graça e vendendo depois por preço elevado, foi o negócio de um tal Duarte Belo (de que ainda existe memória numa Rua da Bica Duarte Belo, aquela que é percorrida pelo elevador da Bica). Era um armador e negociante que possuía na Boavista (onde fica hoje a rua do mesmo nome) umas casas e um terreno no qual existia uma bica, designada pelos seus utentes como «Bica dos Olhos ». Em 1726, publicava-se em Lisboa no «Arquipégio Medicinal» um anúncio recomendando, como remédio infalível para terçolhos e outros males da vista, a lavagem dos olhos na «Bica do Duarte Belo ». Tinha de ser antes do Sol nascer, para garantir a cura. O rei D. João III que estava no Paço de Benavente, teve ir para Alhos Vedros e depois para Azeitão, porque os seus aposentos de Benavente ficaram destruídos. Em Santarém, na Castanheira, em Vila Franca de Xira, na Azambuja, onde sacudidos pelo sismo os sinos tocaram sozinhos, no Lavradio, em Setúbal. Digamos que o terramoto de 1531 afectou toda a região de Lisboa e o vale do Tejo. Os testemunhos, muito mais escassos do que os de 1755, existem, no entanto: Além do já citado António de Castilho, há uma carta de um anónimo castelhano ao marquês de Tarifa, Fradique Enríquez de Ribera, descrevendo as destruições em Lisboa, nomeadamente na Rua dos Fornos, onde ruíram numerosas casas e as da Rua Nova. Na carta, descrevia-se também o pavor da população lisboeta que dormia vestida para poder fugir ao primeiro sinal de novo sismo. Como disse Garcia de Resende na sua »Miscelânea», referindo-se também a este terramoto:



  «Todos com medo que haviam

deixaram casas, fazendas;
nos campos, praças dormiam
em tendilhões e em tendas,
casas de ramas faziam;
as mais noites velando,
temendo e receando;
porque tremor não cessava;
a gente pasmada andava
com medo, morte esperando».


 
Em 1755, a par com as «explicações» tradicionais – castigo divino pelos desmandos humanos – surgiram abordagens diferentes, científicas umas (com os naturais limites da ciência contemporânea) e outras procurando explicar racionalmente o que sucedera. Em 1531, o estado dos conhecimentos sobre o mosaico multidisciplinar que permite compreender fenómenos naturais desta natureza, era mais do que incipiente. No entanto, quando frades de Santarém relacionaram os danos verificados na cidade pela presença de judeus, ou melhor, de «cristãos novos», visto que os judeus haviam sido expulsos no reinado de D. Manuel, Gil Vicente combateu esta tentativa de culpabilizar os hebreus, numa carta que leu perante os próprios frades, atacou as prédicas dos clérigos que aterrorizavam os fiéis anunciando-lhes que os cataclismos eram resultado da ira divina contra os pecados dos homens. Com o mesmo esclarecedor objectivo, escreveu uma carta a D. João III condenando a perseguição aos judeus. Curioso o facto de, em 1755, uma das tais «explicações» encontradas para o sismo, tenha sido a das perseguições feitas aos judeus, a par com hábitos debochados importados de França e de Itália e com a proibição de os crentes lerem a Bíblia.




de Carlos Loures

 
Poema em ladino



sefarad mito


LAS PALABRAS


Las palabras
devienen madeshas
las vo despiegando
las vo rodeando
hasta que piedren su senso
locas de no ser.
Yo las amaso de muevo

y les do vivenza,
nacen a ser mi pan,
nacen a ser mi vino,
no se arugan
en el tiempo
de la zona eternel.


Margalit Matitiahu

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Sugestão musical da semana



O grupo português de música 
klezmer, os "MELECH MECHAYA".



Melech Mechaya






Efeméride



A 9 de Março do ano de 1244, o Papa Inocêncio IV
ordena que o Talmude seja queimado publicamente, por considerar um livro demasiadamente "perigoso".







terça-feira, 8 de março de 2011

Iluminuras




 Image:Spanishhaggadah.jpg


Hagadah, livro utilizado no serviço da noite de Pessach, e que narra as diversas passagens do povo
hebreu na sua libertação da escravatura do Egipto.
Exemplar do século XIV, Espanha.






Ilustração de um Seder (ceia festiva de Pessach), século XIV, Espanha.



"Sei que vou morrer infeliz.
E comigo o meu País.
Clamo aos sete ventos ajuda
E o vento nada me diz..."


Marquês de Pombal




Vestígios e memórias do passado (Parte V)





Judiaria




Área onde habitavam e se recolhiam os judeus após o toque do sino da igreja ao anunciar as avé-Marias; ou vésperas, ficando os seus moradores impedidos de sair, exceptuando um motivo de força maior, como o caso de um médico judeu ser chamado para acudir a algum paciente cristão.
Em todas as judiarias do reino, estas podiam, ou não, ser encerradas com portões e guardadas por homens armados, cristãos no exterior, e os bedin no seu interior.
Estas comunas possuíam autonomia nos seus assuntos internos, havia os muccaddamim (anciãos), e os dayyanim (juízes).
A sinagoga era não só o centro espiritual de toda a kahal, como o local onde se buscava a possível segurança e protecção de ataques vindos do exterior da comuna.



A partir de 1492, o número de judiarias já existentes em Portugal cresce em área habitada, devido ao seu grande número de habitantes, na sua maioria deles refugiados vindos de Castela, mas também novas comunidades são fundadas na raia fronteiriça.
Évora por exemplo, tinha 1000 habitantes judeus até 1492, e um ano depois, passa a ter 3000 almas.
Com a chegada massiva de judeus espanhóis a Portugal, as primeiras grandes manifestações populares de anti-judaísmo surgem quase espontaneamente, nascem novas designações na toponímia das ruas, as mesmas onde os judeus viviam.
Em Évora, a rua principal da judiaria passou a chamar-se "Rua dos Tinhosos". Já na capital do reino, Lisboa, nasce um termo bem específico, "O Poço dos Cães", e na Covilhã, a "Rua Suja".


* Segunda a historiadora Maria José Ferro Tavares, em Portugal viveriam até finais do século XV, aproximadamente 30 a 40 mil judeus portugueses, 3 a 4% da população nacional.
Com os descobrimentos portugueses chegam judeus de toda a Europa, ávidos de riqueza e da aventura própria da conquista, mas também fascinados com o cosmopolitismo de uma Lisboa impregnada de novos odores, e das múltiplas oportunidades no comércio marítimo.
Mas foi com a vinda de milhares de famílias de judeus expulsos de Espanha (pensa-se que terão entrado entre 120 mil a 150 mil judeus), que a população hebraica passou a ser 15% do total nacional. 





A casa do judeu e pormenor da janela - Linhares da Beira.






Judiaria de Tabuaço.



05|05|08


Mira-Gaia


Kahal em hebraico significa congregação, daí a transformação para o grego eklesia, dando posteriormente origem à palavra igreja.


* "Judaísmo em Portugal" - Centro Nacional de Cultura - Lisboa, 1997



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